5 de março de 2016

VINHOS DO VELHO MUNDO X VINHOS DO NOVO MUNDO

Na disputa entre vinhos do Velho e do Novo Mundo, não há vinho melhor nem pior.

Como já defendido no post ESSE VINHO É BOM OU É RUIM?, há vinhos que agradam ao seu paladar e vinhos que desagradam, e há vinhos que você pode pagar e podem valer a pena, e vinhos que você não pode pagar e podem não valer a pena.

O seu estilo preferido de vinho é só seu, e não precisa ser igual nem parecido com o estilo de ninguém.

No entanto, é bem verdade que há os tipos de vinhos mais adequados para cada ocasião. Festas, jantares, churrascos, happy hours, reuniões de negócios etc, cada um desses eventos pede o tipo certo de vinho.

E há também os tipos de vinhos que podem (e devem) ser servidos sozinhos, os chamados "vinhos para degustação", que ficam muito melhores se bebidos sozinhos, pois perdem parte de suas características se acompanhados de refeiçoes ou petiscos.

Mas o assunto sobre os tipos de vinhos mais adequados para cada ocasião é bastante complexo, e abordaremos isso mais detidamente em um outro momento.

Sem prejuízo disso, o conhecido “abismo” entre a considerada sofisticação e complexidade dos vinhos do Velho Mundo em relação à considerada simplicidade dos vinhos do Novo Mundo vem sendo minimizado gradativamente.

Exemplo disso é que ocorre hoje na região da Toscana, onde vários produtores abandonaram o engessamento e rigidez para a produção de vinhos DOC e DOCG, e estão a produzir os SUPER TOSCANOS (ou os “vinhos fora da lei” da Toscana), e que estão sendo produzidos com uvas internacionais como a Cabernet Sauvignon, Merlot e Pinot Noir, em vez de serem produzidos apenas com as uvas regionais típicas.

São vinhos de caráter mais jovem e que apresentam características bem diferentes em relação aos vinhos tradicionais ali produzidos, e, tal como os do Novo Mundo, são mais frutados, mais alcoólicos, mais “amadeirados” e menos complexos. Os produtores dos SUPER TOSCANOS estão a utilizar de métodos mais modernos e tecnológicos de produção, com o emprego de colheita mecânica, irrigação industrial, vinhas projetadas, e tudo o mais que não seria permitido na produção de um vinho italiano DOC ou DOCG.

Portugal vem em seguida, produzindo excelentes vinhos também com diferentes características.

Semana passada degustei às cegas um excelente vinho português (vejo o nome e incluo aqui depois) que tinha todas as característica de um vinho do Novo Mundo, mais precisamente de um vinho chileno, no dizer da maioria que ali estava. E aquele vinho português surpreendeu a todos!

E o contrário também é absolutamente verdadeiro: o Novo Mundo, tendo a tecnologia como sua aliada, está a produzir excelentes vinhos de grande complexidade e enorme potencial de guarda, dignos de rivalizar e até vencer qualquer competição com os vinhos mais tradicionais do Velho Mundo.

Isso inclusive já aconteceu no episódio que ficou conhecido como "O Julgamento de Paris", ocorrido em 1976, no qual um vinho branco e um vinho tinto produzidos na região de Nappa Valley, na Califórnia, venceram em uma degustação às cegas os vinhos franceses mais famosos e bem conceituados do mundo.

Para saber mais leia o post O JULGAMENTO DE PARIS.

E por enquanto é só isso, pessoal!

Espero que tenham gostado e se gostaram compartilhem.

Ajudem a divulgar porque quanto mais gente lendo, aprendendo e se apaixonando por vinhos, melhor :-)

VINHOS DO NOVO MUNDO


Os vinhos do Novo Mundo, provenientes dos países dos continentes americano, africano, australiano e neozelandês têm como palavra de ordem a liberdade.

Os produtores desses continentes são livres não só para escolherem a cepa ou as cepas das uvas que serão cultivadas, as características do vinho que será produzido, a graduação alcoólica e o nível residual de açúcar no vinho etc, como também são livres na escolha dos métodos de plantio e de produção, permitindo-se a utilização de tecnologia de ponta para produção de "vinhos de precisão".

O emprego de alta tecnologia na vitivinicultura no Novo Mundo pode incluir inclusive métodos que promovam alterações e até mesmo correções das características originais do solo, e que possam afetar diretamente as uvas, obtendo-se um ambiente controlado no cultivo das vinhas para obtenção do vinho pretendido como produto final. 

Os produtores do Novo Mundo valorizam o nome da uva em seus rótulos, e atribuem todos os méritos do seu vinho ao vitivinicultor/enólogo/produtor. 

Não dependem nem estão vinculados às características do terroir, às condições climáticas ou às características do vinho da região, como fazem os produtores tradicionais do Velho Mundo.

Os nomes e os rótulos dos vinhos do Novo Mundo também não estão subordinados a regulamentações específicas, nem por tipos de vinhos e nem por regiões, podendo conter o uso indiscriminado e sem qualquer correspondência das expressões "superior", clássico", "reserva", "reserva especial" apenas por estratégia de marketing, sem que essas expressões signifiquem, contudo, que o vinho seja de melhor qualidade ou superior.

Em sua grande maioria, os países do Novo Mundo produzem vinhos mais frutados, simples, mais comerciais e fáceis de beber, para consumo imediato, com preços bem mais acessíveis também, e visam principalmente o novo mercado consumidor de vinho, que vem crescendo em ritmo galopante mundo afora.

Na sequência, vem um post no qual são abordadas as diferenças entre os vinhos do Velho Mundo e do Novo Mundo.

VINHOS DO VELHO MUNDO

Nos países do Velho Mundo as técnicas rústicas de cultivo de uvas viníferas e de produção de vinho foram passadas de geração em geração ao longo de milhares de anos, e se aperfeiçoaram e se modernizaram sem que tenha havido, contudo, comprometimento dos métodos tradicionais no processo de vinificação.

Exemplo disso, é que ainda hoje os países do Velho Mundo preferem as técnicas manuais no cultivo das uvas. As colheitas também são feitas manualmente. E ao tempo da colheita, o grau de maturação das uvas é verificado diariamente pelos produtores, que provam e testam a fruta, e então decidem se ela está pronta ou não para ser colhida.

Romântico isso, não?

Daria para escrever um livro (ou ao menos um capítulo inteiro de um livro) apenas falando sobre as características das regiões, dos grandes produtores e dos vinhos do Velho Mundo...

Para simplificar, então, vou apresentar em seguida algumas características básicas desses vinhos:

TRADIÇÃO:

Nos países do Velho Mundo a maioria dos produtores ainda se utiliza técnicas manuais para o cultivo e para a colheita das vinhas.

Os produtores mais tradicionais (e que são também os mais importante), a exemplo dos produtores da Região de Borgonha, na França, ainda usam (e com muito orgulho!) os mesmos métodos de vinificação de 200, 300 anos atrás.

A maioria dos vinhos clássicos do Velho Mundo não trazem estampados em seus rótulos o nome da uva ou das uvas com que são produzidos; os produtores desses vinhos esperam que o apreciador do seu produto já conheça as uvas com que seus vinhos são feitos, exatamente por conta da tradição!


REGULAMENTAÇÃO E CONTROLE:

Os vinhos mais tradicionais (e que são também os mais famosos e bem conceituados) têm os métodos de vinificação e as características dos vinhos regulados e definidos em legislações específicas, de âmbito nacional e regional, a exemplo dos vinhos AOC (Appellation d’origene contrôlée) na França; os vinhos DOC (Denominazione di Origine Controllata) e DOCG (Denominazione di Origine Controllata e Garantita) na Itália; e os vinhos Crianza, Reserva e Gran Reserva na Espanha. Outros países do Velho Mundo, a exemplo de Portugal, já não possuem regulamentações específicas sobre os seus vinhos.

Apenas algumas uvas regionais específicas podem ser cultivadas e utilizadas para a produção dos vinhos tradicionais. Aqui vão alguns exemplos exemplo:

- na França, na região de Borgonha, só são cultivadas e produzidos vinhos com a uva tinta Pinot Noir e a uva branca Chardonnay, e os vinhos se classificam em Cru, Gran Cru e Premier Cru;

- na região de Bordeaux só são cultivadas as uvas tintas Cabernet Sauvignon, Merlot, Cabernet Franc, Petit Verdot, Malbec (pouco utilizada) e Carmenere (quase extinta oficialmente) (não falarei sobre as uvas brancas de Bordeuax agora), e os tintos dessa região derivam do corte ("blend") dessas uvas (o chamado "corte bordalês" clássico leva as uvas Cabernet Sauvignon, Merlot e Cabernet Franc). O vinho Petrus ali produzido, um dos mais caros e considerado um dos melhores do mundo, é produzido 100% com a uva Merlot (poucas safras podem ter até 5% de Cabernet Fanc), e por conta disso não ostenta em seu rótulo o título AOC  (por opção e escolha do seu produtor, claro).


- na região de Champagne cultivam-se as uvas Pinot Noir, Chardonnay e Pinot Meunier para a produção do espumante mais famoso do mundo, o Champagne, feito a partir do corte dessas três uvas. A título de curiosidade, os espumantes feitos só com as uvas tintas levam em seu rótulo a expressão “Blanc de Noir” e os espumantes feito só com uvas brancas levam em seu rótulo a expressão “Blanc de Blanc”;

- as uvas e os vinhos italianos são regionalizados. Os vinhos Barolo e Barbaresco feitos a partir da uva Nebiolo são provenientes do Piemonte, e não são encontrados na Toscana; e os vinhos Chianti Classico e Brunello di Montalcino feitos com as uvas Sangiovese e Sangiovese Grosso provêm da Toscana, e não são encontrados no Piemonte. E por aí vai. A exceção é o espumante Prosecco,  o mais famoso da Itália, que atravessa divisas e é encontrado no país inteiro, produzido com a uva Glera (uva antes chamada de Prosecco, e que em razão da confusão com o nome do vinho teve seu nome alterado recentemente).

TERROIR: 

Os vinhos do Velho Mundo dependem quase que em sua totalidade de fatores naturais como as condições do terroir e do microclima da região (o conceito de terroir, desenvolvido pelos franceses, é o de atribuir ao vinho personalidade própria, de acordo com as características de cada casta de uva utilizada, do solo onde são cultivadas, do microclima da região, da experiência dos viticultores e ainda da qualidade da cave ou dos barris de carvalho utilizados para envelhecimento do vinho. 

O terroir é, além disso, um conceito cultural, ligado às comunidades que vivem do cultivo e culto ao vinho.). Por conta disso, na maioria das regiões mais tradicionais não é admitida, por exemplo, irrigação e drenagem artificial do solo, utilização de cobertura para proteção das vinhas contra sol forte, ataques de insetos e de aves, chuva de granizo etc.

Quanto às características dos vinhos do Velho Mundo, entende-se que justamente por primarem por métodos tradicionais no cultivo, na colheita e no processo de vinificação; por possuírem regulamentação e controle rígido sobre a produção dos vinhos mais conceituados (ou seriam os mais tradicionais?); e por produzirem vinhos mais intensos, encorpados, tânicos (a propiciar mais longevidade e maior potencial de guarda à bebida) e mais complexos (diferentes níveis de aromas e sabores), os vinhos do Velho Mundo são considerados mais sofisticados, e, via de regra, são muito, mas muito mais caros que aqueles produzidos no Novo Mundo.

4 de março de 2016

A ORIGEM DO VINHO



A história do vinho é tão antiga que se confunde com a própria história da civilização humana, e a sua origem data de tempos remotos onde os registros gráficos por meio da escrita, símbolos e desenhos ainda não eram utilizados.

Para se ter uma ideia do quão antigo é o vinho, no Antigo Testamento encontramos relatos de que Noé plantou o primeiro vinhedo do mundo, produziu, bebeu o primeiro vinho da história e embriagou-se (Gênesis, capítulo 9, versículos 20 a 24). [1]

Ao lado da história Cristã, há indícios de que as mais antigas vinhas datam de 7.000 a 5.000 a.C. e foram cultivadas na Geórgia, na região do Cáucaso (hoje situado na fronteira entre Europa e Ásia, tendo a Rússia ao Norte/Leste, o Azerbajão ao Leste/Sul, a Armênia e Turquia ao Sul, e o Mar Negro a Oeste):


Mapa da Geórgia

E acredita-se que os vinhos tenham surgido também nesse período e naquela região, apesar de as primeiras prensas e outros equipamentos vitivinícolas terem sido encontrados na Armênia em 4.000 a.C..

A par disso, os egípcios foram os primeiros a registrar em pinturas e documentos datados de 3000 a 1000 a.C. o processo de cultivo de vinhas e produção de vinho e o uso do vinho em celebrações, aparecendo, portanto, como os primeiros enólogos da história. 

Historia Do Vinho 2

E a partir do ano de 2500 a.C. os vinhos egípcios foram exportados para a Europa Mediterrânea, África Central e reinos asiáticos, e os responsáveis por essa propagação foi o povo fenícios, comerciantes marítimos proveniente da Ásia Antiga.

No ano de 2000 a.C. o vinho chegou à Grécia, e a partir de 1000 a.C. os gregos começam a plantar videiras em outras regiões da Europa.

A rota do vinho na Europa nos primórdios dos tempos é bem retratada no mapa abaixo:

mapa da expansão do vinho pela Europa


Disso tudo, a única certeza que se tem é que as primeiras vinhas foram cultivas e os primeiros vinhos foram produzidos na Geórgia, na região do Cáucaso,  cerca de 7000 a 4000 anos a.C., e de lá as vinhas e o vinho se espalharam pelo restante do continente europeu.

Daí o conceito de vinhos do Velho Mundo, fazendo-se menção aos vinhos produzidos há milhares de anos nos países do continente europeu, a saber: França, Itália, Espanha, Portugal, Espanha, Áustria, Alemanha, Grécia, Hungria, Israel, Romênia, Eslováquia, Croácia, Chipre, Suíça, Inglaterra e Macedônia.

Somente a partir das grandes navegações é que o continente americano recebeu os vinhedos durante o período de colonização espanhola.

Isso mesmo: As primeiras mudas de vinhas foram trazidas às Antilhas no ano de 1493 por Cristóvão Colombo, e após a adaptação das vinhas às terras tropicais, estas foram exportadas para o México, os Estados Unidos e as colônias espanholas na América do Sul.

Vem daí, então, o conceito de vinhos do Novo Mundo, fazendo-se menção aos vinhos provenientes dos países dos continentes americano, africano, australiano e neozelandês.

E neste post é só isso, pessoal!

Espero que tenham gostado, e se gostaram fiquem à vontade para compartilhar nas mídias sociais, porque quanto mais gente lendo, aprendendo e se apaixonando por vinhos, melhor :-)

Comentem, perguntem, e se tiverem um tempinho respondam à enquete para decidir sobre oque falaremos na próxima publicação.

[1] "Sendo Noé lavrador, passou a plantar uma vinha.Bebendo do vinho, embriagou-se e se pôs nu dentro de sua tenda.
Cam, pai de Canaã, vendo a nudez do pai, fê-lo saber, fora, a seus dois irmãos.
Então, Sem e Jafé tomaram uma capa, puseram-na sobre os ombros e,  andando de costas, rostos desviados, cobriram a nudez do pai, sem que a vissem.
Despertando Noé do seu vinho, soube o que lhe fizera o filho mais moço."


3 de março de 2016

QUANDO PODEMOS DEVOLVER UM VINHO NO RESTAURANTE?


Sempre que pedimos um vinho em um restaurante o Garçom, Maitre ou Sommelier traz a garrafa de vinho até a mesa, abre, olha a rolha e o vinho (e às vezes até cheira), dispõe uma quantidade mínima na taça e a oferece a quem pediu o vinho, para provar e aprovar!

Toda essa formalidade, esse ritual como diriam alguns, tem uma razão bem simples de existir, e faz todo o sentido:

O exame visual da rolha irá revelar se há manchas de vinho no corpo da rolha. O normal é que haja manchas de vinho apenas na parte inferior da rolha, e que fica em contato com o líquido dentro da garrafa. Se houver manchas de vinho ao longo do corpo da rolha, isso significa que pode ter havido vazamento de vinho por entre as ranhuras da rolha, e a entrada de oxigênio na garrafa, causando oxidação do vinho.

E o exame visual do vinho na taça irá revelar se o vinho contém impurezas e suspensões, e se está sendo servido com borras, caso em que surge a necessidade de prévia decantação do vinho, para separação da parte sólida do líquido da bebida.

Depois parte-se para o exame olfativo do vinho (e até da rolha), a fim de se identificar se o vinho está realmente oxidado (apresentando odor de vinagre, Vermute), se o vinho está bouchonné (apresentando odor de mofo), ou se o vinho está “brett” (apresentando odores intensos e em demasia de couro, suor e bacon).

Concluídos os exames visual e olfativo, a identificação de algum tipo de defeito é a única justificativa para a recusa e retorno de uma garrafa de vinho adquirida em um restaurante.

Para saber mais sobre os defeitos do vinho, clique e leia o artigo ESSE VINHO É BOM OU É RUIM?

Devolver o vinho simplesmente porque você escolheu mal e o vinho não agradou ao seu paladar ou ao de sua(eu) convidada(o) é uma atitude reprovável, e que pode inclusive ser contestada pelo estabelecimento, causando enorme (e desnecessário) constrangimento a todos.